Renascimento: prática de respiração promete melhorar saúde, regular sono e reduzir ansiedade
Renascimento: prática de respiração promete melhorar saúde, regular sono e reduzir ansiedade
Outras técnicas mais conhecidas, como ayurveda e acupuntura, se popularizam com a proposta de equilibrar corpo e mente
Fonte: O Globo/Por Maíra Rubim
Pesquisas recentes confirmam: respirar de forma consciente pode transformar corpo e mente. Entre os benefícios já observados estão melhora da saúde do coração, redução da ansiedade, mais clareza mental, regulação do sono e até fortalecimento do sistema imunológico. Dentro desse universo, uma das práticas de respiração existentes é o renascimento.
Criada pelo terapeuta americano Leonard Orr nos anos 1970, a técnica consiste em um fluxo contínuo de ar, sem pausas entre a inspiração e a expiração. O objetivo é acessar camadas profundas da memória corporal, liberar tensões acumuladas e reintegrar experiências traumáticas armazenadas na chamada “memória celular”.
— A respiração é a função mais básica da nossa vida. É o primeiro ato ao nascer e o último ao morrer. Entre esses dois extremos, ela nos acompanha o tempo todo — explica a terapeuta Maíra Swami, que conduz encontros semanais em Botafogo.
Para ela, o método pode ser visto como uma “meditação ativa”:
— Quando respiramos de forma curta e superficial não entramos em contato com nossas questões. Já uma respiração ampla, profunda e circular abre espaço para que possamos acessar nossa história, nos conectar com emoções e encontrar clareza e paz. É um processo acessível a todos.
A prática costuma durar cerca de uma hora, com orientação contínua do terapeuta para que o participante mantenha a respiração circular. Em grupo ou individualmente, o processo pode trazer desde relaxamento físico até desbloqueios emocionais. Segundo Maíra, cada sessão é única:
— Cada vez que respiramos, carregamos a vivência daquele dia ou daquela semana. O corpo escolhe o que vai manifestar. Os efeitos, no entanto, costumam se repetir. Mais bem-estar, menos ansiedade e alívio de dores crônicas.
Além dos atendimentos individuais e em grupos em Botafogo, no Espaço Prosa, Maíra organiza retiros de imersão, nos quais os participantes praticam a respiração consciente de forma intensiva, em meio à natureza. Uma de suas pacientes é Berna Mattoso, que exalta o relaxamento profundo promovido pela técnica.
— É uma ferramenta muito eficaz para reduzir ansiedade, depressão e angústia e levar ao relaxamento profundo. Ajuda a gente a sair do turbilhão da mente, e a pessoa consegue se entregar ao processo — afirma.
— Tinha uma grande necessidade de foco. Adquiri mais consciência corporal e respiratória, mais clareza nos pensamentos e sentimentos e cheguei ao relaxamento profundo. Estar mais concentrada me trouxe muitos benefícios. Quando você faz semanalmente ou quinzenalmente, obtém ainda mais resultados.
Professora de ioga e terapeuta renascedora, Branca Messina descobriu a técnica ao ser apresentada por uma colega terapeuta integrativa.
— Já conhecia os efeitos da respiração consciente pela ioga, mas o renascimento me levou a um mergulho ainda mais profundo. Foi tão transformador que decidi me formar e oferecer também essa experiência — recorda.
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Para ela, o maior benefício é a reconexão com a própria essência.
— Respirar é voltar para casa. O renascimento nos permite liberar memórias guardadas, curar feridas emocionais, dissolver tensões e abrir espaço para mais vitalidade. É uma prática que traz clareza e presença — resume.
Branca atende no Leblon, no estúdio Ser Yogaterapêutico, em sessões individuais de cerca de uma hora e meia ou em encontros coletivos mais longos, de até três horas.
— No individual, a pessoa mergulha em suas questões mais íntimas. Já no grupo, a energia coletiva fortalece o processo e cria uma atmosfera poderosa de apoio e cura — afirma.
A técnica, que nasceu com o propósito de acessar até memórias intrauterinas e do próprio nascimento, hoje é aplicada de forma mais ampla. Pesquisas apontam que o Renascimento ajuda na regulação emocional, no tratamento de ansiedade e da depressão, no aumento da consciência corporal e até no alívio de dores crônicas, como as da fibromialgia.
— É para todos que desejam se conhecer mais profundamente, respirar melhor, transformar padrões, atravessar ansiedades ou depressões. E também para quem busca despertar um novo olhar sobre a vida. O renascimento é, antes de tudo, uma experiência de nutrição através da própria respiração, simples e, ao mesmo tempo, profundamente transformadora — diz Branca.
Ayurveda já está no SUS
Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como terapia alternativa e já inserida em práticas do Sistema Único de Saúde (SUS), a medicina ayurvédica é considerada a ciência da longevidade, da busca pela harmonia entre corpo, mente e espírito. A prática combina alimentação, rotina saudável, massagens, óleos medicinais, exercícios respiratórios, meditação e outros recursos naturais para prevenir e tratar desequilíbrios.
— A ayurveda não é apenas um detox, é uma ciência que integra, pacifica e nutre. O objetivo é deixar a pessoa forte, saudável e preparada para viver plenamente — explica Amanda Sandhas (@amandasandhas), terapeuta ayurveda, doula e professora especializada na saúde da mulher.
Entre os múltiplos benefícios da ayurveda estão a melhora da digestão, da circulação sanguínea, do sono e da vitalidade, além da redução da ansiedade, do estresse e da fadiga crônica. Também há fortalecimento do sistema imunológico e maior clareza mental. Não por acaso, seus princípios têm sido incorporados como complemento aos tratamentos convencionais da medicina ocidental.
— Nosso corpo e nossa mente estão totalmente integrados. Quando trabalhamos esse equilíbrio, não só eliminamos toxinas, mas também nutrimos o organismo. Questões comuns que as mulheres trazem são problemas de pele, cansaço, excesso de peso e falta de nutrição — diz Amanda.
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No espaço terapêutico conduzido por Amanda, em Laranjeiras, o atendimento começa com uma consulta detalhada, na qual são avaliados estilo de vida, alimentação, rotina e qualidade dos tecidos corporais. A partir desse diagnóstico é montado um plano personalizado, que pode incluir sessões pontuais ou pacotes mais longos. Entre as práticas oferecidas estão massagens, escalda-pés e sauna ayurvédica. Diferentemente da sauna comum, esse método não aquece a cabeça: a pessoa permanece sentada enquanto o vapor de ervas medicinais age no corpo, levando à liberação de toxinas e ao fortalecimento da imunidade.
— Não colocamos nada na pele que não colocaríamos na boca, e convido a pessoa a ter esse olhar sobre tudo o que põe no corpo. A pele é nosso maior órgão receptor, por isso tudo o que aplicamos precisa ser pensado com esse cuidado — ressalta.
O toque, segundo a terapeuta, é um dos pontos centrais da experiência:
— Tocar em um corpo é tocar em histórias. Muitas vezes, durante uma massagem, a mulher se emociona porque sente que algo dentro dela foi acolhido. Esse é o poder de integrar corpo, mente e emoções.
A trajetória de Amanda Sandhas na ayurveda se entrelaça com sua ancestralidade. Em 2019, ao lado da mãe, ela concluiu a formação em doulagem. A decisão, segundo ela, resgatou um elo familiar: sua bisavó foi parteira.
— Acompanhar uma gestante é preparar o corpo dela para receber uma nova vida. E a ayurveda tem ferramentas especiais para esse momento de transformação —explica.
Como doula ayurvédica, Amanda apoia mulheres não apenas no trabalho de parto, mas em todo o ciclo da gestação e do puerpério.
— O parto é também um processo de renascimento para a mãe. A massagem com óleos medicinais, por exemplo, ajuda a nutrir, a acalmar e a fortalecer a mulher nesse período. É como se ela fosse embalada de novo, envolvida em cuidado — conta.
O trabalho se estende ainda à menopausa, fase que, segundo a terapeuta, pede acolhimento e ressignificação.
— Muitas mulheres chegam com queixas de ressecamento, cansaço e baixa vitalidade. A ayurveda ajuda a desacelerar, a reconectar com o corpo e a atravessar essa etapa com mais consciência e bem-estar. Outro campo de atuação é o acompanhamento de mulheres que passaram por abortos, oferecendo espaço de escuta e integração para processos pouco reconhecidos pela sociedade — completa.
Embora sua especialidade seja a saúde da mulher, Amanda também atende homens, mas apenas com indicação.
— É importante que esse cuidado seja buscado de forma consciente. A ayurveda não é uma massagem comum, mas um processo de autoconhecimento e transformação — ressalta.
Os relatos de pacientes são diversos: melhora do sono, alívio do estresse, maior disposição física, redução de dores, equilíbrio emocional e até mudanças nos hábitos alimentares.
— O grande benefício é ajudar a pessoa a voltar para si mesma, a sentir-se bem com quem ela é no momento. A saúde não é apenas ter exames normais, mas ter vitalidade, clareza mental e confiança para lidar com os desafios da vida — resume Amanda.
— O que a ayurveda proporciona é um retorno em qualidade de vida. É estar mais presente, mais equilibrado e em paz consigo mesmo. Cuidar de si é também cuidar do mundo. Quando estamos em equilíbrio, conseguimos viver com mais consciência e leveza. É isso que a ayurveda ensina e é isso que busco compartilhar em cada atendimento. Massagem, óleos medicinais e acolhimento — finaliza.
Acupuntura para encontrar o equilíbrio
Mais do que aliviar dores, a acupuntura promove a homeostase, que é o estado de equilíbrio que mantém todas as funções vitais em harmonia. Ao estimular pontos específicos do corpo, a técnica milenar da medicina chinesa regula o sistema nervoso autônomo e favorece a liberação de neurotransmissores e hormônios como serotonina e endorfinas, capazes de reduzir inflamações, aumentar a imunidade e melhorar o bem-estar físico e emocional.
Esse equilíbrio também se reflete no sistema imunológico: pesquisas mostram que a acupuntura pode atuar de forma bidirecional, fortalecendo as defesas contra doenças como o câncer e, ao mesmo tempo, modulando respostas exageradas em casos de doenças autoimunes.
— Na medicina chinesa, a pessoa é vista de forma integral. A dor, muitas vezes, não é apenas física. As emoções são o carro-chefe e influenciam diretamente no corpo — explica Ruth Fazollo (@draruthfazollo), fisioterapeuta especializada em acupuntura há 25 anos.
Segundo Ruth, que atende em Laranjeiras, cada paciente passa por uma anamnese detalhada, que considera desde padrões de sono até aspectos emocionais.
— Não existe receita de bolo. O tratamento é vivo, muda a cada sessão conforme a necessidade da pessoa — diz.
Ela destaca que muitos chegam ao consultório encaminhados por médicos e psicólogos, em busca de suporte contra insônia, depressão e síndrome do pânico ou no processo de desmame de medicamentos. Outros procuram por questões fisiológicas, como reabilitação pós-operatória, distúrbios intestinais e problemas de ansiedade.
A popularização da técnica fez com que muitos fisioterapeutas começassem a realizar o chamado agulhamento seco, para tratar pontos gatilho musculares. Embora semelhantes na aplicação, a doutora faz questão de diferenciar os dois métodos:
— No agulhamento seco, a agulha é usada apenas para aliviar uma dor localizada, no ponto gatilho. Já na acupuntura, muitas vezes o ponto mais importante não está onde a dor se manifesta, e sim na causa mais profunda do desequilíbrio. A acupuntura vai além do sintoma, buscando restaurar a homeostase do organismo como um todo.
Ruth lembra o caso de uma paciente com disfunção na tireoide que apresentou melhora nos exames após iniciar o tratamento.
— Isso mostra que a resposta não é apenas imediata, mas sistêmica — afirma.
Ela reforça que a acupuntura não apresenta contraindicações e que seus efeitos já têm respaldo científico. Com o avanço dos estudos e a maior aceitação pela classe médica, a acupuntura deixou de ser vista apenas como terapia alternativa e é usada em conjunto com tratamentos convencionais, acompanhando uma busca social por equilíbrio em meio ao ritmo estressante da vida moderna.
— Ao estimular um ponto, a mensagem vai ao cérebro, que responde liberando hormônios e neurotransmissores. Esse mecanismo explica a sensação de bem-estar, o efeito analgésico e o aumento da imunidade. O público está mais esclarecido e procura a acupuntura não só para tratar uma dor, mas para manter o equilíbrio físico, mental e emocional. Esse é o grande papel da técnica: devolver ao corpo sua capacidade natural de equilíbrio — resume a doutora Ruth.

